Indução ao suicídio: sinais de alerta para pais e familiares

Costumamos pensar no suicídio como uma decisão solitária, resultado apenas de um sofrimento íntimo. Muitas vezes, porém, há outros envolvidos. Há pessoas que humilham, perseguem ou pressionam até alguém perder a esperança. E há conteúdos, como séries, notícias, fóruns e vídeos, que apresentam a morte como saída.

Esses casos raramente aparecem nas estatísticas com esse nome. A família se cala, a escola não investiga, o agressor desaparece do registro. O que fica escrito é apenas “suicídio”. Este texto é para pais, familiares e amigos que querem reconhecer quando alguém próximo está sendo empurrado e saber o que fazer.

Pessoas que empurram

A forma mais conhecida é o bullying, que não é “coisa de criança”. Uma grande revisão de estudos encontrou associação consistente entre sofrer bullying e ter pensamentos e comportamentos suicidas na adolescência (Holt et al., 2015). Quando a agressão migra para a internet, ela fica ainda mais difícil de escapar. Ela acompanha a vítima até o quarto, a qualquer hora, diante de uma plateia que parece infinita. Jovens vítimas de agressão online têm mais risco de se machucar e de ter pensamentos suicidas (John et al., 2018).

Entre adultos, um dos contextos mais graves é a violência entre parceiros. Não se trata só da agressão física. Conta também o controle constante, o isolamento dos amigos e da família e a desqualificação diária (“você não vale nada”, “ninguém mais vai te querer”). Estudos que acompanharam pessoas ao longo do tempo mostram que sofrer violência do parceiro está associado a mais tentativas de suicídio, sobretudo entre mulheres (Devries et al., 2013).

Existe ainda a instigação deliberada: alguém que incentiva, sugere ou pressiona diretamente outra pessoa a tirar a própria vida. No Brasil, isso é crime. O artigo 122 do Código Penal, atualizado pela Lei nº 13.968/2019, pune quem induz, instiga ou auxilia alguém a se matar ou a se machucar, com pena aumentada quando a vítima é menor de idade ou quando o crime acontece pela internet.

Conteúdos que empurram

A ideia de que histórias podem levar ao suicídio é antiga. No século XVIII, o romance Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe, foi acusado de inspirar imitações entre jovens leitores. Em 1974, o sociólogo David Phillips mostrou que os suicídios nos Estados Unidos aumentavam nos meses seguintes a casos noticiados com destaque nos jornais. Ele chamou o fenômeno de “efeito Werther” (Phillips, 1974).

Um exemplo recente é a série 13 Reasons Why, lançada em 2017. Um estudo norte-americano registrou aumento de suicídios entre jovens de 10 a 17 anos no mês seguinte à estreia, acima do que seria esperado (Bridge et al., 2020). A relação de causa e efeito ainda é discutida, mas o sinal foi forte o bastante para que a cena mais explícita fosse retirada da série.

Isso não significa que todo conteúdo sobre o tema seja perigoso. O que as pesquisas mostram é que o risco aumenta quando o ato é mostrado ou descrito em detalhe, quando a morte aparece como solução, vingança ou forma de finalmente ser notado, e quando nenhuma saída é apresentada. O contrário também foi observado: histórias de pessoas que atravessaram uma crise e encontraram ajuda parecem ter efeito protetor. Pesquisadores chamaram isso de “efeito Papageno” (Niederkrotenthaler et al., 2010). Por isso a Organização Mundial da Saúde orienta que a mídia trate o tema sem sensacionalismo e sempre informando onde buscar ajuda (OMS, 2017).

Sinais de que alguém está sendo empurrado

Fique atento quando a pessoa:

  • se isola de repente e evita escola, trabalho ou amigos;
  • passa a ter medo de alguém ou de abrir o celular;
  • é controlada de perto por um parceiro, que vigia mensagens, roupas ou saídas;
  • repete frases de desvalorização que parecem vir de outra boca (“eu não presto”, “sou um peso”);
  • consome repetidamente conteúdos que tratam a morte como algo bonito ou como solução;
  • participa de grupos online fechados e sigilosos, sobre os quais não quer falar.

O que fazer

Pergunte diretamente. Muitos familiares têm medo de tocar no assunto e “dar a ideia”. As pesquisas indicam o contrário: perguntar sobre pensamentos suicidas não aumenta o risco e pode até trazer alívio a quem já sofre em silêncio (Dazzi et al., 2014). Uma pergunta simples, como “você tem pensado em desistir de tudo?”, abre uma porta que a pessoa talvez não consiga abrir sozinha.

Escute sem julgar. Evite frases como “isso é bobagem” ou “tem gente em situação pior”. Elas fecham a conversa.

Olhe para o terceiro. Se há alguém agredindo, a solução não é só tratar a vítima. Converse com a escola, guarde provas (prints, mensagens, áudios) e, quando houver crime, registre ocorrência. Em casos de violência doméstica, o Ligue 180 orienta mulheres.

Cuide do que é consumido, sem punir. Proibir tudo costuma afastar. Assistir junto, perguntar o que a pessoa achou e conversar sobre o conteúdo funciona melhor do que confiscar o celular.

Busque ajuda profissional. A rede pública oferece atendimento pelas Unidades Básicas de Saúde e pelos CAPS. O CVV atende pelo 188, gratuitamente e 24 horas por dia. Em situação de risco imediato, ligue para o SAMU, no 192.

Quem é empurrado ao limite raramente consegue pedir ajuda. Por isso, quem está por perto faz diferença. Às vezes, o que interrompe a queda é alguém que percebeu, perguntou e não foi embora.

Aviso: Este texto aborda o tema do suicídio. Se você está passando por um momento difícil ou tem pensado em tirar a própria vida, não está sozinho: ligue para o CVV no 188 (gratuito, 24 horas) ou acesse cvv.org.br. Em caso de risco imediato, ligue para o SAMU, no 192.  

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação ou acompanhamento psicológico.


Referências

Bridge, J. A., Greenhouse, J. B., Ruch, D., Stevens, J., Ackerman, J., Sheftall, A. H., Horowitz, L. M., Kelleher, K. J., & Campo, J. V. (2020). Association between the release of Netflix’s 13 Reasons Why and suicide rates in the United States: An interrupted time series analysis. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, 59(2), 236–243.

Brasil. (2019). Lei nº 13.968, de 26 de dezembro de 2019. Altera o art. 122 do Código Penal.

Dazzi, T., Gribble, R., Wessely, S., & Fear, N. T. (2014). Does asking about suicide and related behaviours induce suicidal ideation? What is the evidence? Psychological Medicine, 44(16), 3361–3363.

Devries, K. M., Mak, J. Y., Bacchus, L. J., et al. (2013). Intimate partner violence and incident depressive symptoms and suicide attempts: A systematic review of longitudinal studies. PLoS Medicine, 10(5), e1001439.

Holt, M. K., Vivolo-Kantor, A. M., Polanin, J. R., et al. (2015). Bullying and suicidal ideation and behaviors: A meta-analysis. Pediatrics, 135(2), e496–e509.

John, A., Glendenning, A. C., Marchant, A., et al. (2018). Self-harm, suicidal behaviours, and cyberbullying in children and young people: Systematic review. Journal of Medical Internet Research, 20(4), e129.

Niederkrotenthaler, T., Voracek, M., Herberth, A., et al. (2010). Role of media reports in completed and prevented suicide: Werther v. Papageno effects. British Journal of Psychiatry, 197(3), 234–243.

Organização Mundial da Saúde & International Association for Suicide Prevention. (2017). Preventing suicide: A resource for media professionals – update 2017. OMS. 

Phillips, D. P. (1974). The influence of suggestion on suicide: Substantive and theoretical implications of the Werther effect. American Sociological Review, 39(3), 340–354.

 

 

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