Dores do passado: como lidar com lembranças que não passam
Muita gente conhece esta sensação: uma lembrança de anos atrás volta e traz junto o mesmo aperto no peito, a mesma vergonha ou a mesma raiva de quando aconteceu. A vida mudou, as pessoas mudaram, mas aquela dor parece intacta, como se o relógio tivesse parado para ela.
Uma imagem ajuda a pensar nisso: a de pedras que vamos colocando numa mochila ao longo da vida. Uma humilhação na escola, uma perda que não pudemos chorar direito, uma relação que terminou mal, uma violência sofrida. Cada uma pesa um pouco. Com o tempo, nos acostumamos ao peso e quase esquecemos que ele está ali. Mas ele continua cobrando seu preço no cansaço, na irritação, no medo de repetir a história ou na dificuldade de confiar.
A metáfora é útil porque deixa clara uma coisa: não conseguimos apagar o que aconteceu. A pedra existe. O que pode mudar é a forma como a carregamos.
Por que o tempo, sozinho, nem sempre resolve
Existe a ideia popular de que “o tempo cura tudo”. Em parte, ela tem fundamento. Pesquisas sobre luto e eventos traumáticos mostram que a maioria das pessoas atravessa experiências muito difíceis sem desenvolver problemas duradouros. O psicólogo George Bonanno (2004) chamou atenção para essa capacidade de resiliência, que é mais comum do que se imaginava.
Mas “a maioria” não é “todo mundo”. Algumas dores não se acomodam com o passar dos anos. Elas voltam em sonhos, em reações exageradas a situações parecidas, em padrões que se repetem. Freud descreveu esse fenômeno ainda em 1914, no texto “Recordar, repetir e elaborar”: aquilo que não conseguimos lembrar e pensar tende a ser repetido na prática, muitas vezes sem que a pessoa perceba. Em vez de recordar a dor, ela a revive.
Ou seja: o problema nem sempre é a lembrança em si, mas o fato de ela nunca ter sido realmente digerida.
Colocar em palavras ajuda, mas não é mágica
Uma das linhas de pesquisa mais conhecidas sobre esse tema começou nos anos 1980, com o psicólogo James Pennebaker. Em um estudo clássico, estudantes universitários escreveram por 15 minutos, durante quatro dias seguidos, sobre experiências traumáticas ou perturbadoras da vida deles. Nos meses seguintes, quem escreveu sobre os fatos e também sobre os sentimentos ligados a eles foi menos vezes ao serviço de saúde da universidade do que quem escreveu sobre assuntos banais (Pennebaker & Beall, 1986).
Há um detalhe importante, frequentemente omitido quando esse estudo é divulgado: logo após escrever, os participantes se sentiam pior, mais tristes e angustiados. O benefício veio depois. Mexer numa ferida costuma doer antes de aliviar.
Desde então, centenas de estudos testaram a chamada “escrita expressiva”. Uma grande revisão reuniu mais de cem experimentos e encontrou um efeito positivo, porém pequeno, e que varia bastante de pessoa para pessoa e de situação para situação (Frattaroli, 2006). Em linguagem simples: ajuda algumas pessoas, em algum grau. Não é um tratamento milagroso.
Pesquisas com imagens do cérebro sugerem uma pista sobre o porquê. Em um experimento, nomear a emoção que uma imagem provocava (“raiva”, “medo”) reduziu a atividade da amígdala, uma região ligada a reações emocionais intensas (Lieberman et al., 2007). Vale a ressalva: era uma situação de laboratório, com fotos de rostos, e não com lembranças traumáticas reais. Mas o resultado combina com algo que a clínica conhece há muito tempo: dar nome ao que sentimos já muda um pouco a nossa relação com aquilo.
O poder dos gestos simbólicos
Voltemos às pedras. Algumas pessoas escrevem cartas que nunca vão enviar. Outras queimam um papel, plantam uma árvore, visitam um lugar ou guardam um objeto que representa uma fase encerrada. Esses pequenos rituais existem em praticamente todas as culturas, especialmente em torno da morte.
Os pesquisadores Michael Norton e Francesca Gino (2014) investigaram isso em uma série de experimentos com pessoas que haviam passado por perdas, desde a morte de alguém querido até o fim de um relacionamento. Quem realizou algum tipo de ritual relatou menos sofrimento, e a explicação mais provável é que o ritual devolve uma sensação de controle diante de algo que, por natureza, nos escapou.
O gesto simbólico não muda o passado. Ele organiza a experiência: marca um antes e um depois, transforma uma dor difusa em algo que pode ser segurado, olhado e, em algum momento, colocado no chão.
Superar não é esquecer
Talvez o ponto mais importante seja este: elaborar uma experiência dolorosa não significa esquecê-la. Algumas lembranças vão continuar fazendo parte da sua história. O que muda é o lugar que elas ocupam.
Os psicólogos Richard Tedeschi e Lawrence Calhoun (2004) estudaram pessoas que, depois de crises graves, relataram mudanças importantes em suas vidas: mais clareza sobre o que valorizam, relações mais profundas, uma nova compreensão de si mesmas. Eles chamaram isso de “crescimento pós-traumático”. É preciso cuidado com essa ideia: o trauma não é “bom”, e ninguém tem obrigação de tirar lições do próprio sofrimento. O que essa pesquisa mostra é apenas que a dor e a reconstrução podem coexistir.
Uma lembrança elaborada continua sendo lembrada. A diferença é que ela deixa de decidir por você.
Quando a pedra é pesada demais
Escrever, conversar com alguém de confiança e criar seus próprios rituais podem ajudar. Mas há situações em que esses recursos não bastam, e insistir sozinho pode até piorar as coisas. Vale procurar ajuda profissional quando:
- as lembranças invadem o dia a dia, em forma de imagens, pesadelos ou sustos;
- você passa a evitar lugares, pessoas ou assuntos para não sentir;
- o sono, o trabalho ou os relacionamentos estão sendo prejudicados;
- há uso crescente de álcool ou outras substâncias para aliviar o mal-estar;
- surgem pensamentos de que não vale a pena continuar vivendo.
Nesse último caso, a rede pública oferece atendimento psicológico pelas Unidades Básicas de Saúde e pelos CAPS, e o CVV (Centro de Valorização da Vida) também atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia. Você não precisa fingir que nada aconteceu para seguir em frente. Muitas vezes, o primeiro passo é admitir o peso que carrega e se permitir dividir esse peso com alguém. Ninguém foi feito para carregar todas as pedras sozinho.
Referências
Bonanno, G. A. (2004). Loss, trauma, and human resilience: Have we underestimated the human capacity to thrive after extremely aversive events? American Psychologist, 59(1), 20–28.
Frattaroli, J. (2006). Experimental disclosure and its moderators: A meta-analysis. Psychological Bulletin, 132(6), 823–865.
Freud, S. (2010). Recordar, repetir e elaborar (1914). In Obras completas, vol. 10 (P. C. de Souza, Trad.). Companhia das Letras.
Lieberman, M. D., Eisenberger, N. I., Crockett, M. J., Tom, S. M., Pfeifer, J. H., & Way, B. M. (2007). Putting feelings into words: Affect labeling disrupts amygdala activity in response to affective stimuli. Psychological Science,18(5), 421–428.
Norton, M. I., & Gino, F. (2014). Rituals alleviate grieving for loved ones, lovers, and lotteries. Journal of Experimental Psychology: General, 143(1), 266–272.
Pennebaker, J. W., & Beall, S. K. (1986). Confronting a traumatic event: Toward an understanding of inhibition and disease. Journal of Abnormal Psychology, 95(3), 274–281.
Tedeschi, R. G., & Calhoun, L. G. (2004). Posttraumatic growth: Conceptual foundations and empirical evidence. Psychological Inquiry, 15(1), 1–18.
Aviso: este texto tem finalidade informativa e educativa, baseado em estudos científicos específicos, e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por profissional de saúde mental qualificado. Se você ou alguém que você conhece está passando por sofrimento psíquico, procure um serviço de saúde (como um CAPS) ou um profissional de psicologia ou psiquiatria de confiança.