Benefícios do abraço para a saúde emocional: o que a ciência diz

Abraço faz bem? O que já se sabe sobre isso

A gente abraça quando alguém chega, quando vai embora, quando comemora, quando consola. Às vezes, um abraço diz o que nenhuma palavra daria conta de dizer. Mas será que ele faz bem de verdade para as nossas emoções, ou é só uma ideia bonita? Muita gente já pesquisou isso, e as respostas são interessantes. Vamos a elas, sem exageros.

A gente aprende o mundo pela pele

Antes de falar, antes de entender qualquer palavra, o bebê já conhece o mundo pelo toque: o colo, o calor, o cheiro de quem cuida. O contato com o corpo do outro é uma das primeiras formas de se sentir seguro.

Nos anos 1950, um pesquisador americano chamado Harry Harlow fez um experimento famoso (e hoje muito criticado, por ser cruel com os animais). Ele colocou filhotes de macaco com duas “mães” de mentira: uma feita de arame, que dava leite, e outra coberta de pano macio, que não dava comida nenhuma. Os filhotes passavam quase o tempo todo agarrados à mãe de pano, principalmente quando se assustavam (Harlow, 1958). O aconchego pesava mais que a comida. Hoje se sabe que nossa pele tem “sensores” próprios para o toque carinhoso, diferentes dos que sentem pressão ou dor. Eles reagem melhor a toques lentos e suaves, como um afago, e estão ligados à sensação de prazer (Löken et al., 2009). Ou seja: o corpo foi feito para perceber o carinho.

Abraço acalma

Um dos efeitos mais estudados é sobre o estresse. Em uma pesquisa com casais, quem ficou de mãos dadas e recebeu um abraço do parceiro antes de passar por uma situação tensa teve menos aumento da pressão e dos batimentos do coração do que quem não teve esse contato (Grewen et al., 2003). Outro estudo mostrou que mulheres que recebiam abraços do companheiro com mais frequência tinham a pressão mais baixa e mais ocitocina no corpo. A ocitocina é uma substância produzida pelo nosso organismo que tem a ver com a sensação de vínculo e de segurança (Light et al., 2005).

Em um experimento mais recente, pessoas que ganharam um abraço de uns 20 segundos antes de uma situação estressante produziram menos cortisol, conhecido como “hormônio do estresse”, do que quem não ganhou. E tem um detalhe bonito: quem colocou a própria mão sobre o peito, num gesto de autoacolhimento, também teve esse benefício (Dreisoerner et al., 2021). Então, quando não houver ninguém por perto, vale lembrar que o próprio corpo também pode oferecer algum conforto.

Depois de uma briga, um abraço ajuda

Todo mundo sabe como uma briga com alguém próximo pode estragar o dia. Pesquisadores acompanharam mais de 400 pessoas durante duas semanas, perguntando todo dia se elas tinham brigado com alguém e se tinham recebido abraços. Nos dias de briga, quem recebeu um abraço ficou menos abatido, e o efeito apareceu até no dia seguinte (Murphy et al., 2018). O abraço não resolve a briga, mas parece diminuir o estrago que ela faz no nosso humor. Esse mesmo grupo de cientistas encontrou algo curioso. Eles expuseram voluntários ao vírus do resfriado (com todos os cuidados) e viram que quem se sentia mais apoiado e recebia mais abraços parecia ficar mais protegido do efeito do estresse. E, entre os que ficaram resfriados, quem tinha recebido mais abraços teve sintomas mais leves (Cohen et al., 2015). É mais uma lembrança de que corpo e emoção andam juntos.

Não é um estudo só

Uma pesquisa sozinha pode enganar. Por isso, é bom saber que cientistas já juntaram e compararam os resultados de muitas pesquisas sobre o toque. Uma pesquisadora americana que estuda o tema há décadas reuniu vários desses trabalhos e encontrou sinais de que o toque carinhoso ajuda a diminuir a ansiedade e a melhorar o humor (Field, 2010). Em 2024, outro grupo reuniu mais de 200 estudos e chegou a uma conclusão animadora: abraços, massagens e outras formas de toque carinhoso ajudam a aliviar dor, ansiedade e tristeza, em crianças e adultos (Packheiser et al., 2024). E não precisa de muito: mesmo toques curtos e de vez em quando já fazem alguma diferença.

Mas vamos com calma

Algumas coisas precisam ser ditas com honestidade.

Muitas dessas pesquisas mostram que abraço e bem-estar andam juntos, mas não provam que um causa o outro. Quem recebe mais abraços pode também ter mais amigos, uma família mais presente e uma vida mais tranquila, e tudo isso também faz bem. Fica difícil saber quanto é mérito só do abraço.

A ocitocina costuma aparecer na internet como “hormônio do amor” ou “hormônio da felicidade”. É um exagero. Ela tem um papel importante, mas age de jeitos diferentes em cada pessoa e em cada situação.

Você talvez já tenha lido que “precisamos de oito abraços por dia para crescer”. A frase é bonita e circula muito, mas não tem comprovação científica.

E o mais importante: abraço só faz bem quando é desejado. Para quem passou por situações de violência, para quem se incomoda com toque ou simplesmente para quem não está a fim naquele momento, um abraço forçado pode deixar a pessoa mais tensa, e não mais tranquila. Perguntar “posso te dar um abraço?” não estraga nada. Pelo contrário: garante que o gesto seja mesmo um carinho.

Por fim, abraço não substitui tratamento. Ele pode ajudar muito, mas ansiedade, depressão e sofrimento intenso pedem acompanhamento de um profissional.

Para levar com você

No fim das contas, o abraço parece funcionar como um recado para o corpo: “você não está sozinho”. Esse recado ajuda a acalmar, deixa os dias difíceis um pouco mais leves e fortalece os laços com quem a gente gosta.

Então, se fizer sentido para você e para a outra pessoa, abrace. Com vontade, com calma e com respeito pelo tempo de cada um.

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Para saber mais

Cohen, S., Janicki-Deverts, D., Turner, R. B., & Doyle, W. J. (2015). Does hugging provide stress-buffering social support? A study of susceptibility to upper respiratory infection and illness. Psychological Science, 26(2), 135–147.

Dreisoerner, A., Junker, N. M., Schlotz, W., Heimrich, J., Bloemeke, S., Ditzen, B., & van Dick, R. (2021). Self-soothing touch and being hugged reduce cortisol responses to stress: A randomized controlled trial on stress, physical touch, and social identity. Comprehensive Psychoneuroendocrinology, 8, 100091.

Field, T. (2010). Touch for socioemotional and physical well-being: A review. Developmental Review, 30(4), 367–383.

Grewen, K. M., Anderson, B. J., Girdler, S. S., & Light, K. C. (2003). Warm partner contact is related to lower cardiovascular reactivity. Behavioral Medicine, 29(3), 123–130.

Harlow, H. F. (1958). The nature of love. American Psychologist, 13(12), 673–685.

Light, K. C., Grewen, K. M., & Amico, J. A. (2005). More frequent partner hugs and higher oxytocin levels are linked to lower blood pressure and heart rate in premenopausal women. Biological Psychology, 69(1), 5–21.

Löken, L. S., Wessberg, J., Morrison, I., McGlone, F., & Olausson, H. (2009). Coding of pleasant touch by unmyelinated afferents in humans. Nature Neuroscience, 12(5), 547–548.

Murphy, M. L. M., Janicki-Deverts, D., & Cohen, S. (2018). Receiving a hug is associated with the attenuation of negative mood that occurs on days with interpersonal conflict. PLoS ONE, 13(10), e0203522.

Packheiser, J., Hartmann, H., Fredriksen, K., Gazzola, V., Keysers, C., & Michon, F. (2024). A systematic review and multivariate meta-analysis of the physical and mental health benefits of touch interventions. Nature Human Behaviour, 8, 1088–1107.

 

 

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