Misofonia: quando sons comuns afetam a saúde mental

Imagine ouvir alguém mastigando, fungando, respirando ou batendo repetidamente uma caneta e sentir uma reação emocional desproporcional: irritação intensa, raiva, nojo, ansiedade ou necessidade urgente de sair do ambiente. Para algumas pessoas, isso não é apenas “mania” ou falta de paciência. Pode ser misofonia, uma condição ainda pouco conhecida, mas cada vez mais investigada pela ciência.

O que é misofonia?

A misofonia é caracterizada por uma tolerância reduzida a sons específicos, chamados de sons-gatilho. O ponto central não é simplesmente o volume do som. Em geral, trata-se de sons cotidianos, muitas vezes produzidos por outras pessoas. Mastigação, deglutição, respiração, tosse, estalos, cliques e ruídos repetitivos estão entre os gatilhos frequentemente descritos.

Um consenso internacional publicado em 2022 definiu a misofonia como uma condição na qual determinados sons ou estímulos associados provocam respostas emocionais e fisiológicas intensas. Os pesquisadores também destacam que a experiência pode variar bastante entre indivíduos e que ainda existem questões importantes sobre classificação, diagnóstico e tratamento (Swedo et al., 2022).

Misofonia não é simplesmente “não gostar de barulho”

Essa diferença é importante. Uma pessoa pode se incomodar com música alta ou com uma obra na rua porque o som é intenso. Isso não significa necessariamente misofonia. Na misofonia, um estímulo específico pode desencadear uma resposta automática e muito intensa mesmo quando o som não é particularmente alto.

Estudos experimentais sugerem que o cérebro de pessoas com misofonia pode atribuir uma saliência exagerada a determinados sons. Em uma pesquisa com neuroimagem, Kumar et al. (2017) observaram respostas diferenciadas no córtex insular anterior, região relacionada à percepção de relevância dos estímulos, emoções e sinais corporais. Também foram observadas alterações nas respostas fisiológicas, como frequência cardíaca e condutância da pele.

Por isso, dizer “é só ignorar” costuma ser pouco útil: a reação pode começar antes de uma decisão consciente.

Qual é a relação entre misofonia e saúde mental?

A relação é complexa. Misofonia não deve ser automaticamente confundida com depressão, ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) ou outro transtorno psiquiátrico. Ao mesmo tempo, pesquisas mostram que sintomas de saúde mental podem aparecer com maior frequência entre pessoas que apresentam misofonia.

Um estudo clínico encontrou sintomas de transtorno de estresse pós-traumático, TOC, depressão e outros quadros entre participantes com misofonia (Dozier & Morrison, 2017). Outra pesquisa realizada com pacientes psiquiátricos encontrou associação entre maior intensidade da misofonia e sintomas de ansiedade, depressão e estresse, embora a ansiedade tenha apresentado a associação mais consistente após ajustes estatísticos (Jager et al., 2020).

Esses resultados não permitem afirmar que a misofonia “causa” ansiedade ou depressão. A relação pode ser bidirecional ou envolver fatores comuns. Uma pessoa que vive diariamente tentando evitar sons-gatilho pode, por exemplo, experimentar mais tensão, antecipação e desgaste emocional.

Quando a misofonia começa a limitar a vida

O impacto psicológico aparece principalmente quando a reação aos sons interfere no cotidiano. Algumas pessoas passam a evitar refeições em família, restaurantes, transportes públicos, salas de aula ou ambientes de trabalho. Outras podem precisar utilizar fones de ouvido, mudar de lugar ou controlar constantemente o ambiente.

A antecipação pode ser desgastante. Saber que determinada pessoa vai comer ao lado pode gerar ansiedade antes mesmo de o primeiro som aparecer. Em casos mais graves, a pessoa pode sentir culpa ou vergonha pela intensidade de sua reação, especialmente quando percebe que familiares, colegas ou parceiros não compreendem o que está acontecendo.

Assim, a questão da saúde mental não está apenas no som. Está nas consequências sociais, emocionais e comportamentais produzidas pela tentativa de lidar com ele.

Misofonia tem tratamento?

Ainda não existe um tratamento único considerado padrão-ouro para todos os casos. A própria área é relativamente recente e os estudos clínicos ainda são menores do que aqueles disponíveis para transtornos psicológicos mais estabelecidos.

A avaliação pode ser interdisciplinar, envolvendo psicologia, psiquiatria e, quando necessário, profissionais da audiologia. Uma revisão sistemática destaca justamente a importância de uma abordagem integrada para avaliação e manejo da condição (Aryal & Prabhu, 2023).

Na psicologia, o objetivo não precisa ser simplesmente “fazer o som deixar de incomodar”. O trabalho pode envolver compreensão dos gatilhos, regulação emocional, redução da evitação excessiva, estratégias de enfrentamento e investigação de pensamentos e comportamentos que aumentam o sofrimento. Quando existem ansiedade, depressão, TOC ou outros problemas associados, eles também precisam ser avaliados.

Também é importante evitar soluções simplistas. Fones ou distância podem ajudar, mas evitar todos os sons pode ampliar as restrições na vida cotidiana.

Um ensaio clínico randomizado encontrou resultados promissores para uma intervenção baseada na terapia cognitivo-comportamental, embora os pesquisadores ressaltem que ainda são necessários mais estudos para estabelecer as melhores formas de tratamento (Jager et al., 2021).

Quando procurar ajuda psicológica?

O incômodo merece atenção profissional quando provoca sofrimento intenso, conflitos frequentes, isolamento, prejuízo acadêmico ou profissional, dificuldades familiares ou sensação de perda de controle sobre as próprias reações.

O primeiro passo não é necessariamente descobrir um “rótulo”, mas compreender o que está acontecendo. A avaliação clínica profissional ajuda a diferenciar misofonia de outras condições relacionadas à sensibilidade sonora e a identificar possíveis problemas de saúde mental associados.

Misofonia mostra como a experiência humana dos sons é muito mais complexa do que simplesmente ouvir ou não ouvir. Para algumas pessoas, determinados estímulos sonoros podem mobilizar rapidamente emoções, respostas corporais e comportamentos de esquiva.

A ciência ainda está construindo uma compreensão mais precisa da condição. Por isso, é inadequado tratar a misofonia como frescura, mas também é precipitado transformá-la automaticamente em um diagnóstico psiquiátrico. O caminho mais responsável é reconhecer o sofrimento, avaliar o impacto na vida da pessoa e buscar estratégias terapêuticas baseadas nas evidências disponíveis.

Referências acadêmicas

ARYAL, S.; PRABHU, P. Understanding misophonia from an audiological perspective: a systematic review. European Archives of Oto-Rhino-Laryngology, 280, 1529–1545, 2023.

JAGER, I. J. et al. Misophonia: phenomenology, comorbidity and demographics in a large sample. PLoS ONE, 15(4), e0231390, 2020.

JAGER, I. J. et al. Cognitive behavioral therapy for misophonia: a randomized clinical trial. Depression and Anxiety, 38, 708–718, 2021.

KUMAR, S. et al. The brain basis for misophonia. Current Biology, 27(4), 527–533, 2017.

SWEDO, S. E. et al. Consensus definition of misophonia: a Delphi study. Frontiers in Neuroscience, 16, 841816, 2022.

Aviso importante: Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e educativa. A leitura deste artigo não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento realizado por psicólogo, psiquiatra ou outro profissional de saúde qualificado. A misofonia pode se manifestar de diferentes formas e pode estar associada a outras condições, por isso a identificação dos sintomas deve ser feita por meio de avaliação profissional individualizada.

 

BIGTheme.net • Free Website Templates - Downlaod Full Themes