Entre o mercado e a cidadela interior: reencantar a vida no neoliberalismo
Há épocas em que o mundo parece perder o brilho não porque as coisas mudaram, mas porque o modo de olhar foi exaurido. A nossa é uma delas. Sob o neoliberalismo, não apenas trabalhamos mais: passamos a nos medir o tempo todo. A vida cotidiana é atravessada por métricas invisíveis — desempenho, eficiência, utilidade — que transformam a existência em um projeto permanente de otimização. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han descreve esse sujeito como alguém que já não precisa ser explorado de fora: ele próprio se cobra, se acelera e se esgota. Nesse processo, o mundo vai sendo desencantado. Tudo vira meio para um fim, e quase nada permanece como fonte de sentido.
Falar em reencantar o mundo, aqui, não é ingenuidade. É uma tentativa de recuperar alguma espessura existencial em um sistema que lucra justamente com a fragmentação da atenção e do desejo. Trata-se menos de mudar o mundo e mais de reaprender a habitá-lo.
Quando a excelência perde o sentido
Na tradição épica atribuída a Homero, o mundo era violento, incerto e atravessado por forças maiores que o indivíduo. Ainda assim, havia uma pergunta central: como viver de modo digno em meio ao caos? A resposta passava pela areté — a excelência entendida não como produtividade, mas como realização plena das próprias capacidades. Na Ilíada, o herói não é grande apenas porque vence batalhas, mas porque age com honra diante do destino, deixando como rastro uma vida que fez sentido.
Hoje, essa ideia de excelência foi comprimida até quase desaparecer. No lugar dela, instalou-se uma lógica de desempenho contínuo, na qual o valor do sujeito é medido por resultados mensuráveis. O trabalho deixa de ser espaço de realização e se torna campo de exaustão. O mundo, privado de aura e simbolismo, passa a ser tratado apenas como estoque de recursos. Reencantar a vida, nesse cenário, implica resgatar a capacidade de ver valor onde o sistema enxerga apenas função.
A cidadela interior em tempos de instabilidade
Séculos depois da épica, um imperador romano escrevia anotações pessoais para não se perder em meio ao poder e às pressões do império. Em suas Meditações, Marco Aurélio não ensina como dominar o mundo, mas como não ser dominado por ele. Sua aposta é simples e exigente: não controlamos os acontecimentos externos, mas podemos escolher como reagir a eles. Esse espaço interno de autonomia — que os estoicos chamavam de cidadela interior — é o que impede que o sujeito seja inteiramente capturado pelas circunstâncias.
O neoliberalismo opera no sentido oposto. Ele sugere, o tempo todo, que a felicidade depende de fatores externos: reconhecimento, status, crescimento constante. O estoicismo propõe um reencantamento discreto, porém radical: deslocar o eixo da vida para aquilo que depende de nós — julgamento, atitude, ética. A beleza, nesse caso, não está no que se acumula, mas na clareza com que se vive.
No cotidiano, isso significa reconhecer que o sistema ensina a colecionar “diamantes” simbólicos — metas, cargos, capital — enquanto a saúde mental funciona como o recipiente que os sustenta. Um sucesso sólido pouco vale se a mente que o carrega está rachada.
Destino, mercado e dignidade
Na épica homérica, os personagens sabem que não controlam o destino. Ainda assim, escolhem como enfrentá-lo. Heitor luta não porque acredita na vitória, mas porque recusar a luta significaria abrir mão da própria dignidade. O encantamento não nasce do resultado, mas da postura.
No século XXI, o destino assume a forma do mercado global, com suas flutuações imprevisíveis e exigências constantes. Reencantar o mundo neoliberal não significa negar essa realidade, mas encará-la como o campo onde a ética pessoal é testada. É aqui que ressoa a ideia de amor fati, mais tarde retomada por Friedrich Nietzsche: aceitar o cenário não como resignação, mas como afirmação da própria potência de agir dentro dele. Quando o sujeito deixa de se perceber apenas como vítima do sistema e passa a vê-lo como um contexto a ser atravessado com critério, o mundo ganha novas camadas de sentido.
Pequenos gestos, grandes deslocamentos
Essa reflexão só se sustenta se puder tocar a vida concreta. Um primeiro gesto de reencantamento é cuidar da atenção. Em um ambiente que disputa cada segundo de foco, escolher o que merece tempo é um ato de saúde mental. Reservar espaços de pausa — o antigo skholé, o ócio dedicado a pensar — não é improdutividade, mas reorganização psíquica.
Outro gesto é devolver ritualidade ao cotidiano. Para a épica, cada refeição, cada deslocamento, cada encontro carregava significado. A vida contemporânea, ao contrário, acelera tudo até tornar as experiências intercambiáveis. Reencantar é desacelerar o suficiente para estar presente. Práticas de atenção plena ajudam a reduzir o estresse fisiológico e ampliam a sensação de satisfação com a própria vida.
Por fim, há a escolha pela excelência interna. Enquanto a competição neoliberal empurra para comparações constantes, a ética clássica propõe medir-se por si mesmo. Tornar-se melhor do que se foi ontem, e não melhor do que o outro, reduz a ansiedade social e fortalece a autonomia emocional.
Conclusão: habitar sem ser absorvido
Quando Protágoras afirmou que o homem é a medida de todas as coisas, apontava para algo que o neoliberalismo insiste em apagar: o sentido não está nas estruturas, mas no olhar que as atravessa. Não somos engrenagens neutras; somos intérpretes da engrenagem.
O estoicismo oferece a disciplina interna necessária para não sucumbir à pressão contínua. A épica oferece a imaginação e a dignidade para enfrentar um mundo duro sem empobrecer a experiência. Viver melhor, hoje, não é abandonar o sistema nem romantizar a fuga, mas aprender a habitá-lo sem permitir que ele esgote tudo o que torna a vida digna de ser vivida.
O mundo pode não mudar sua lógica de lucro amanhã. Mas a lógica com que cada um se relaciona com ele pode mudar agora — e é nesse deslocamento silencioso que o reencantamento começa.
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