O Manual Que Nunca Veio
“Na muita sabedoria há muito enfado; e o que aumenta o conhecimento, aumenta a dor.” — Eclesiastes 1:18
Ninguém se lembra mais de quando o pacote chegou. Só se sabe que, em algum momento remoto, o ser humano recebeu um presente. Um presente silencioso, pesado e pulsante: o cérebro. Veio embalado em tecido vivo, envolto em promessas. Dentro da caixa invisível, um bilhete curto: “Use com cuidado.”
Logo, o homem começou a utilizá-lo, no começo, foi um deslumbre. O presente brilhava, descobriu o fogo, criou utensílios, canções e deuses. O ser humano andava ereto, olhava o horizonte e acreditava que podia pensar o próprio destino.
Com o passar do tempo passou a exigir: “Pense. Planeje. Melhore. Vença.” E desde este dia o homem, perdeu o sono porque começou a pensar demais. As ideias começaram a vir aos borbotões. As mãos tremiam, o peito ardia, e os pensamentos nunca mais se desligaram. O presente foi se transformando em patrão, e seu portador em servo.
Para tentar apaziguá-lo, o ser humano construiu máquinas. Chamou-as de inteligências, como quem entrega a um espelho a própria loucura. Alimentou-as com tudo o que tinha — imagens, memórias, amores — e acreditou que, enfim, estaria livre. Mas as máquinas apenas ampliaram o barulho. Surgiu um outro cérebro, que agora morava fora do corpo, multiplicado em telas.
Vieram as síndromes, os diagnósticos, as pílulas coloridas. Cada frasco trazia a promessa de consertar o presente, mas o problema nunca esteve no presente — e sim no seu mal uso. O cérebro, cansado, passou a se defender: trancava portas, confundia rotas, transformava alegria em neblina. A humanidade chamou isso de “crise existencial”. Ele chamava de “recuperação de sistema.”
Um dia, exausta, uma mulher decidiu buscar novamente a mãe, caminhar em meio a natureza, sem fones, sem destino. Sentiu o vento atravessar o cabelo, ouviu o próprio passo e, pela primeira vez em anos, o silêncio. O cérebro pôde parar. Seu destino desde o início era ser parte do corpo, não o seu tirano.
Mas quase ninguém teve o mesmo insight. A maioria ainda corre, cabeça acesa, corpo atrasado, implorando por um manual que nunca virá.
Talvez, o Criador — cansado de repetir o mesmo versículo — apenas sussurre, lá de dentro... “Muita sabedoria, muito enfado.”
out.25