Helena e a luz azul

Numa das incontáveis noites, o reflexo da luz fazia brilhar o rosto de Helena. Ela mal conseguia recordar a ultima vez que havia olhado o céu pela janela do seu quarto. Enquanto os dias se passavam, ela ia passando os dedos pelas fotos, vídeos, narrativas, nada tinha relação com sua vida, mas tudo lhe parecia muito necessário. A luz das imagens lembrava o brilho das velas que outrora serviam de oferenda aos deuses. Porém, a religião já não era mais a mesma e os deuses também. Helena devota fervorosa, sacrificava o tempo e a saúde em nome de um like, reverenciava, sem saber, o algoritmo e o engajamento.

Seu mundo se reduzia cada vez mais a um minúsculo retângulo iluminado, que a despertava pela manhã e a colocava para dormir a noite. No trabalho as telas se multiplicavam, um computador, dois ou três monitores, um tablet e um celular ao seu lado, ela sentia se rodeada por espelhos. Na pausa para o cafezinho, o cigarro ou o almoço, ala aproveitava para olhar nas telas, o que os outros estavam fazendo. 

Quando voltava para casa a noite, sentia o corpo cansado e a mente inquieta. Ao tentar dormir, ouvia o chamado da luz azul como o canto de uma sereia. “Só mais um vídeo”, “só mais uma mensagem”, e assim dia a dia ia ultrapassando os limites do sono, da fome, do cansaço. Ela acreditava controlar o que via, sem perceber que não era isso o que acontecia. Há muito tempo os gregos denominaram de hybris, a desmedida, o excesso, o desafio aos limites humanos. Helena não se lembrava mais das aulas de mitologia grega, nem dessa palavra, mas a vivia na prática.

Depois de algum tempo, a natureza deu sinais de revolta. Seu corpo reclamou, o estomago depois de tantas comidas rápidas e cheias de açúcares disfarçados de energia, começou a incomodar. Sua cabeça latejava. A ansiedade lhe habitava. Helena foi ao espelho – o que não tinha luz azul, nem botão de ligar – e percebeu-se sem cor, olheiras negras haviam surgido abaixo de seus olhos vítreos. Não se reconheceu no que viu.

Na tragédia grega, depois da hybris se seguia a nêmesis, a consequência das desmedidas, enviadas pelos deuses. No mundo moderno, ela não vem de fora, dos deuses, mas de dentro. Helena não foi atingida pelo raio de Zeus, mas pelo vazio que se instalou pela desconexão com o mundo que a cercava. Sentiu uma fome que não era a do corpo. Uma sede que a água não extinguia. Sintomas da conexão desconectada.

Assustada, experimentou sair sem o celular na manhã seguinte. O ar lhe pareceu denso, tudo estava mais lento. O mundo seguia ali, vivo e real à sua espera, mas ela parecia estar caminhando fora de seu tempo. Depois de um longo intervalo sentiu algo se movimentar em seu interior – sinal do retorno.

Ao passar por uma das ruas arborizadas que lhe lembravam a infância, em busca de um lugar para almoçar, Helena lembrou-se dos tempos de colégio, das aulas de mitologia. Seu pensamento se iluminou: compreendeu que a hybris ressurgia a cada manhã, em cada tela de vidro, num feixe de luz azul.

out.25

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