Concepções éticas

 

 

 

As Psicologias

A psicologia é uma ciência que se divide em várias linhas teóricas e especialidades, e cada uma delas pode estar embasada por diferentes perspectivas, o que abre um enorme leque de possibilidades e de diferenças entre os profissionais. Para além dessas particularidades, com o desenrolar de sua prática, o profissional vai criando e adotando um estilo próprio, de forma que mesmo compartilhando uma mesma especialidade e linha teórica, dois profissionais dificilmente terão pensamentos e atitudes similares. É justamente essa multiplicidade que nos permite afirmar que existem tantas psicologias quantos os psicólogos que as praticam — e é nesse contexto plural que se insere a abordagem do sofrimento psíquico.

As psicopatologias: uma escuta clínica do sofrimento psíquico

Ao abordar as psicopatologias, é fundamental compreender que o sofrimento psíquico não pode ser reduzido exclusivamente à ideia de doença a ser eliminada. No contexto contemporâneo, marcado pela intensificação da medicalização da vida, existe o risco de transformar experiências humanas como tristeza, medo, angústia e conflito em diagnósticos patológicos automáticos.

O significado da psicopatologia

A palavra psicopatologia tem origem no grego: psyché (alma), pathos (sofrimento) e logos (discurso). Ou seja, psicopatologia significa literalmente o discurso sobre o sofrimento da alma. A etimologia aponta para uma concepção fundamental: o sofrimento psíquico é algo que precisa ser compreendido, interpretado e contextualizado, e não apenas eliminado. Cada cultura, cada época histórica e cada grupo social desenvolvem formas próprias de nomear, experimentar e lidar com o sofrimento. Por isso, não existe uma psicopatologia universal, mas múltiplas formas de viver e significar a dor psíquica.

Do ponto de vista da psicologia clínica, o sofrimento não é apenas um sintoma a ser silenciado, mas uma forma de linguagem. Ele expressa, por meio do corpo, da fala e do comportamento, algo que não encontrou ainda outro modo de dizer-se. A clínica, nesse sentido, não busca apenas suprimir o sintoma, mas escutá-lo, compreendê-lo e situá-lo na história do sujeito.

Psicopatologia como diversidade e criação

A Psicologia Clínica propõe compreender a psicopatologia como um campo de diversidade, no qual cada manifestação de sofrimento carrega uma história singular, atravessada por fatores subjetivos, sociais, culturais e políticos. O sintoma, nessa perspectiva, pode ser entendido como uma criação psíquica: muitas vezes dolorosa, mas também necessária, encontrada pelo sujeito para lidar com impasses, contradições e conflitos da vida. Ele fala tanto sobre a pessoa quanto sobre o mundo em que ela vive. O papel do psicólogo clínico é escutar esse dizer, ajudá-lo a ganhar sentido, oferecendo condições para que o sujeito encontre outras formas de existência, relação e desejo.

Psicologia clínica e diálogo entre saberes

Essa concepção amplia o campo da saúde mental, aproximando a psicologia de áreas como a antropologia, a filosofia, a sociologia e a arte. Cuidar do sofrimento psíquico implica também considerar as condições sociais e históricas que o produzem e o mantêm. Quando a clínica se abre ao diálogo com outros saberes, ela se torna mais complexa, ética e humana, capaz de responder às múltiplas dimensões do sofrimento contemporâneo. É a partir dessa abertura epistemológica que se torna possível pensar uma clínica ainda mais radical em suas premissas: a Psicologia Klínica.

A Psicologia Klínica

Dentro da perspectiva da Psicologia Klínica - grafada com "K" para marcar o desvio da clínica tradicional centrada na patologia - estabeleço o diálogo entre o pensamento de Baremblitt, com psicanalistas como Bleger, Ulloa e Bohoslavsky, e as perspectivas desnorteadoras, antimanicomiais e antirracistas. Esta construção opera o sofrimento mental como reflexo das contradições sociais, exigindo uma prática que integre as dimensões singular e coletiva de forma indissociável.

Nesta perspectiva, o psicólogo atua como facilitador de processos de mudança, e não como especialista em diagnósticos. A prática é simultaneamente artesanal — pelo caráter único de cada encontro — e política, voltada à resistência contra a desumanização. Cuidar, portanto, define-se como um ato ético-político de fortalecimento da autonomia e de criação de novas possibilidades de vida.

Para saber mais: 

François Laplantine. A antropologia da doença, Martins Fontes, São Paulo, 1991.  

Mareike Wolf. La psychopatologie et ses methodes, Colection "Que sais je?", Paris, PUF, 1998.

Manoel Tosta Berlinck. Saber clínico e saber teórico, Rev. latinoam. psicopatol. fundam. vol.12 no.2 São Paulo June 2009.

Christiana Paiva de Oliveira e Manoel Tosta Berlinck. Os cinco sentidos na psicopatologia fundamental, Psic. Rev. vol. 24, n. 2 (2015).

Pierre Fédida e Patrick Lacoste - Psicopatologia/Metapsicologia. A função dos pontos de vista - Rev. latinoam. Psicopat. Fund. vol.1 no.2 São Paulo Apr./June 1998.

Gregorio F. Baremblitt – Introdução à Esquizoanálise - Editora: Instituto Félix Guattari / Editora Harmattan Brasil.

Leitura recomendada: 

Rita Charon. O corpo que se conta: Por que a medicina e as histórias precisam uma da outra. Letra&Voz. São Paulo. 2015.

 

Código de Ética Profissional do Psicólogo - CRP-SP. 

Toda profissão define-se a partir de um corpo de práticas que busca atender demandas sociais, norteado por elevados padrões técnicos e pela existência de normas éticas que garantam a adequada relação de cada profissional com seus pares e com a sociedade como um todo.   

O Código de Ética Profissional, ao estabelecer padrões esperados quanto às práticas referendadas pela respectiva categoria profissional e pela sociedade, procura fomentar a auto-reflexão exigida de cada indivíduo acerca da sua práxis, de modo a responsabilizá-lo, pessoal e coletivamente, por ações e suas conseqüências no exercício profissional. A missão primordial de um código de ética profissional não é de normatizar a natureza técnica do trabalho, e, sim, a de assegurar, dentro de valores relevantes para a sociedade e para as práticas desenvolvidas, um padrão de conduta que fortaleça o reconhecimento social daquela categoria. 

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